sábado, 20 de junho de 2015

Carlan, Paulo. O esporte como conteúdo da educação física escolar [tese]: um estudo de caso de uma prática pedagógica - PG. 43

Bracht (1992, p. 58) aborda brevemente, numa das raras vezes, a relação esporte, Educação Física e conteúdo, em sua obra de 1992, intitulada Educação Física e Aprendizagem Social, no sentido do
conteúdo socioeducativo do esporte. Apresenta a discussão das contribuições da atividade esportiva na socialização das crianças, contribuição essa que tem sido utilizada como justificativa para a
inclusão da Educação Física nos currículos escolares. A crítica emitida por Bracht (1992, p. 59) é no sentido de que a corrente de pedagogos que defendem a ideia de o esporte contribuir para a socialização das crianças, escamoteia ou não parte de uma análise crítica entre Educação Física e esporte. Reconhece-se a crítica de Bracht no momento histórico no qual a Educação Física encontrava-se e continua sendo pertinente, porém, não avança na perspectiva de sinalizar especificamente como abordar e quais os conteúdos específicos para a Educação Física.
Betti (1991) indaga: deve o esporte integrar-se na Educação Física? Se sim, que tipo de esporte? O autor defende o esporte como um dos conteúdos da Educação Física escolar:
Introduzir o aluno no universo cultural das atividades físicas, de modo a prepará-lo para delas
usufruir durante toda a sua vida [...]. Devem-se ensinar o basquetebol, o voleibol, a dança, a
ginástica, o jogo, visando não apenas o aluno presente, mas o cidadão futuro, que vai partilhar,
produzir, reproduzir e transformar as formas culturais da atividade física. Por isso, na Educação
Física escolar, o esporte não deve restringir-se a um fazer mecânico, visando um rendimento
exterior ao indivíduo, mas tornar-se um compreender, um incorporar, um aprender atitudes, habilidades e conhecimentos, que levem o aluno a dominar os valores e padrões da cultura
esportiva. (BETTI, 1991, p. 58).




Carlan, Paulo. O esporte como conteúdo da educação física escolar [tese]: um estudo de caso de uma prática pedagógica / Paulo Carlan ; orientador Elenor Kunz , coorientador Paulo Evaldo Fensterseifer. –
Florianópolis, SC, 2012. 354 p. ; 148x210 cm. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Desportos. Programa de Pós-Graduação em Educação Física.

domingo, 14 de junho de 2015

«O pensamento ético contemporâneo e o Desporto» (artigo de Manuel Sérgio 2)

Ética no Desporto

22:45 - 06-10-2013
Manuel Sérgio
Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto


Segundo Anthony Giddens, no seu livro As Consequências da Modernidade, o que caracteriza o nosso tempo é a sua descontinuidade, em relação às épocas anteriores. As transformações na tecnociência, na filosofia, nos modos de vida, nas mentalidades; a globalização do economicismo neo-liberal, bem expressa numa alta competição sem freios; o ciberespaço, como novo espaço do saber; confundir felicidade com a posse exclusiva de bens materiais: não deixam a este respeito um rasto de dúvida. No entanto, segundo Rawls, uma das “experiências fundamentais” da modernidade é a existência do fact of pluralism, ou seja, a existência de uma incomensurável pluralidade de valores, que reduz a cinzas qualquer unicidade normativa. Por isso, Habermas faz resultar a moral das condições e pressupostos da deliberação democrática, como se nela ressaltassem, límpidas, a dimensão moral, a ética e a pragmática, quero eu dizer: a complementaridade entre o direito e a moral.

Em Habermas, substitui-se o “imperativo categórico” por formas de comunicação e argumentação. E assim, melhor do que a minha proclamação de leis universais, devo antes submetê-las ao juízo crítico dos demais, para diálogo, discussão e aprovação final. Mas uma pergunta se levanta, imediatamente: e quem detém a palavra e nos dá garantias do bom uso da palavra? A realidade deve considerar-se sob a óptica de quatro níveis ou ordens distintos: a ordem das finalidades, a ordem dos comportamentos, a ordem jurídico-política e a ordem tecnocientífica.

A competência tecnocientífica é a mais visível, embora as diferenças culturais e linguísticas. Nem um idealismo exaltante ou os preconceitos sentimentais escondem a falta de rigor, o charlatanismo, o desconhecimento dos temas em questão. Da ordem jurídico-político-organizacional ressalta a organização que dá força e sentido a quem a representa. A qualidade do estrutural reflecte-se na qualidade das condutas individuais. Mas o comportamento também depende do “homem de bem” que se é.

A lição diária dos factos ensina que, sem um rijo arcaboiço ético, há objectivos inadiáveis que não se alcançam. É preciso distinguir o bem do mal, para que o desejo do “bem comum” possa emergir de tudo o que se faz. Na ordem das finalidades, deve luzir, de facto, o “bem comum”, preparado e materializado pelo homem ao serviço do homem, para que todos os homens possam ser actores da sua história e da própria História.

Uma análise ontológica, mesmo que episódica, da prática desportiva diz-nos que o ser humano é um ser-de-relação. Ou em equipa, ou individualmente, o desportista normalmemte entra em competição, quero eu dizer: precisa do seu semelhante. E, se dele precisa, há-de respeitá-lo, ou seja, não pode fazer dele um instrumento de qualquer um dos seus objectivos. Há, aqui, um jogo de co-responsabilidade: no desporto, também pelos adversários (e não só pelos companheiros da equipa) eu sou responsável. E esta responsabilidade não resulta de uma escolha, de uma preferência individual, porque sem ela não há desporto. Daqui se infere sem dificuldade que, no desporto (como em Levinas), a ética é a filosofia primeira. E, a este ângulo de visão, o praticante exemplar surge como alguém onde brilham excepcionais qualidades físico-motoras e psicológicas, específicas do desporto de alto nível, e simultaneamente admiráveis qualidades éticas. A vontade de vencer é inerente à prática desportiva, mas o praticante, como ser-de-relação, há-de saber vencer e perder, que o mesmo é dizer: há-de saber respeitar e respeitar-se, como vencedor e como vencido, dado que a motricidade humana tem como objectivo primeiro o desenvolvimento de todos e de cada um dos seres humanos. O aprumo e a lealdade, no desporto, não podem significar, hoje, ausência de competição, mas recusa à instrumentalização, ao serviço da competição sórdida do economicismo triunfante, que alimenta, sem mérito nem vergonha, o “bellum omnium contra omnes” (guerra de todos contra todos). A competição, no desporto, é uma forma de diálogo fraterno, deverá ser, por isso, uma expressão corporal do primado da dimensão ético-política sobre a dimensão economicista. Assim, nasce a confiança mútua, que é indispensável à competição desportiva. “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” poderá ser a regra de ouro a presidir ao comportamento dos atletas, dos técnicos (sem esquecer os técnicos de saúde) e dos dirigentes.

Mas há dois perigos que rondam o sistema desportivo: a barbárie e o angelismo. A barbárie, quando os atletas deixam de ser pessoas/cidadãos e passam a ser governados pelo “despotismo iluminado” de dirigentes corruptos ou mal informados. O respeito pelos atletas não pode provir tão-só de “ordens superiores”, ou da ordem jurídica estabelecida, mas de um imperativo moral. No desporto, há o primado absoluto da pessoa sobre a lei. O angelismo acontece, quando se pensa que uma lei, um manifesto, um discurso, as conclusões de um congresso resolvem, por si sós, uma situação concreta. O verdadeiro motor da acção, da motricidade humana, reside na consciência reflexiva e na vontade livre e responsável das pessoas (neste caso, dos praticantes). Não faltam tratados, congressos, publicações e todo um galante florilégio de conclusões sobre a ética no desporto e... a corrupção e a violência permanecem. Porquê? Entre outros motivos, porque não se preparam, pedagogicamente, os alunos e os atletas a serem agentes morais, para além de praticantes de admiráveis qualidades físicas e técnicas. Enganam-se os que pensam que os atletas são singelos títeres, nas mãos dos dirigentes e dos técnicos, ou das leis sem espírito (lembram-se do Espírito das Leis, de Montesquieu?). O Homo Sapiens-Sapiens é um ser que sabe que sabe e sente, por isso, a necessidade imperiosa de criticar, isto é, de saber, em profundidade, quem é, onde está e para onde vai. Posto isto, podemos adiantar que não é o desporto o novo ópio do povo, o ópio do povo é o desporto institucionalizado pelo neoliberalismo dominante, que demasiadas vezes reduz as pessoas a coisas e os sujeitos a objectos. Já há mais de cem anos, Jaime Cortesão alertava, em A Águia (Outubro de 1912) que “não é o regime, nem a agricultura, nem a indústria, nem as finanças que verdadeiramente estão em crise – o que em Portugal, há alguns séculos, está em crise é o Português”. Enfim, há que preparar também as pessoas para que as estruturas se transformem.

Posto isto, propõe-se:

1.Que o desporto escolar inclua, no conteúdo das suas matérias, não a gramática epistemológica das ciências empírico-formais, mas a das ciências hermenêutico-humanas, onde toda a objectualização é ilegítima. E, por isso, onde uma cultura anti-dualista e anti-colonialista e anti-imperialista seja essencial e fundante.

2.Que o ensino universitário do desporto assuma, sem subterfúgios, um paradigma decorrente das ciências hermenêutico-humanas e onde o agente do desporto, como ser-de-relação, se estude como factor de desenvolvimento da pessoa, do grupo, da sociedade.

3.Que a teoria e metodologia do treino não esqueça nunca os aspectos éticos e políticos da prática desportiva. Sem ética, o espectáculo desportivo pode transformar-se num espaço de
violência e de corrupção, dada a alta competição em que decorre.
Quando o treinador Jorge Jesus sustenta que “o fair-play é uma treta”, acentua que a ética movimenta-se com dificuldade num desporto que reproduz e multiplica as taras do economicismo triunfante.

4.Que se reconheça, no atleta, o sujeito ou a pessoa, com um valor incomensurável, em relação ao valor de todos os campeonatos e taças das federações internacionais ou dos Jogos Olímpicos. É o praticante a origem e o fundamento de toda a significação do Desporto. A expressão “jogo de vida ou de morte” deverá erradicar-se do vocabulário desportivo. A morte do ser humano é a morte do próprio Desporto.

E. Levinas, no seu «Autrement qu’être ou au-delà de l’essence», acolhe com bons olhos a desconstrução do humanismo actual, pois este, ao rejeitar o Absoluto, “não é suficientemente humano”. Direi o mesmo do desporto actual que, ao articular-se absolutamente fora do sujeito, rouba ao praticante o estatuto de “primeira pessoa”, para transformá-lo em mera unidade intercambiável. A própria consciência reflexa não é mais, para os novos humanistas, do que o resultado do processo de interiorização de uma ordem que lhe é totalmente exterior. Só que o novo humanismo, ao diluir o ser humano num mundo onde a globalização neoliberal impera, põe o Desporto em questão. Este é um tema que nunca vi tratado pelas instâncias internacionais que se ocupam desta problemática. Falam tanto de ética desportiva, sem darem conta se ela é possível com as estruturas onde o próprio desporto assenta. No entanto, porque a transcendência (a superação) é o sentido do desporto e da própria vida; porque a pessoa humana não nasce feita, mas apta a desenvolver e a desenvolver-se; porque a educação desportiva tem na ética um dos seus fundamentos – propõe-se, por fim, ao Ministério da Educaçãlo e às Universidades que a Ética seja uma disciplina das licenciaturas em Desporto e que, no desporto escolar, a motricidade seja um movimento de acordo com valores – aqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente. No espaço educativo, é pouco, muito pouco, ajudar ao nascimento de “bestas esplêndidas”. O Homem é bem mais do que isto...

domingo, 31 de maio de 2015

Veneno Remédio - Wisnik

Norbert Elias e Eric Dun ning veem na esportivização da caça à raposa o núcleo exemplar e precoce do processo total pelo qual foram cria dos os esportes modernos. A morte do animal já não se destina, como na caça propriamente dita, a tomá-lo como alimento, muito menos é a ocasião de uma oferenda sacrificial. O que importa, em vez disso, é criar as condições de uma perseguição simulada em que o equilíbrio de forças e a postergação do clímax dão a esses o seu maior rendimento catártico possível. Garantir a justa medida de tensão agradável e emoção prazenteira pela batalha fingida, sem produzir danos (a não ser à raposa), é o cerne dessa forma de “figuração”. Estamos longe, evi den te mente, do rito assumido, do sacrifício ou da troca recíproca projetada como função reguladora da violência e compartilhada como festa e luta, em que o jogo é ofertado ao todo. Agora, o monopólio da violência pelo Estado, atado à Lei, rege a concorrência e tem como horizonte controlar todas as dimensões da expressão vital — o todo rege o jogo.
pg. 86

terça-feira, 26 de maio de 2015

EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: a difícil e incontornável relação teoria e prática








 
Motrivivência Ano XIX, Nº 28, P. 27-37 Jul./2007
EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: a difícil e incontornável relação teoria e prática
Paulo Evaldo Fensterseifer1
Fernando Jaime González2
Resumo
Reconhecendo a difícil e complexa problemática da relação teoria-prática, acentuada ainda mais na Educação Física escolar devido às peculiaridades da área; e considerando que a Educação Física, na condição de disciplina escolar, tem como finalidade "formar indivíduos dotados de capacidade crítica em condições de agir autonomamente na esfera da cultura corporal de movimento e de forma transformadora como cidadãos políticos" (Bracht e González), os autores












É bom ter clareza, no entanto, que esse novo projeto para constituir-se em prática hegemônica deve passar pela invenção de novos sentidos e práticas pedagógicas, processo que não se produz pela aplicação de respostas pensadas por outros. Assim, na nossa compreensão, a EF se encontra "entre o não mais e o ainda não"6. Entre uma prática docente na qual não se acredita mais, e uma outra que ainda se têm dificuldades de pensar e desenvolver.7 



6 Expressão utilizada por Stein (1991) para referir-se ao impasse que vivemos em relação à modernidade.



7 Nesse contexto, entendemos que a ausência de projetos curriculares de EF na maioria das escolas e, particularmente, a falta que sente deles uma porção importante dos professores, é um claro sinal dessa transição.





domingo, 24 de maio de 2015

história para Benjamin no Livro de Habermas - Coleção Sociologia.



...o da utopia — pode ser introduzido com a citação de um texto capital, em que Benjamin descreve um quadro de: Klee, o Angelus Novus: 

“Ele representa um anjo, que parece querer afastar-se de algo, que encara com temor... Seu rosto está voltado para o passado., * Este é o aspecto que necessariamente deve ter o anjo da Historia. Nos lugares em que para nos emerge uma seqüência de acontecimentos, ele percebe uma única catástrofe. . . Ele gostaria de permanecer, para ressuscitar os mortos e reparar as ruínas. Mas, uma tempestade vinda do paraíso. . . o impele incessantemente em direção ao futuro, para o qual dá as costas... A tempestade é o que chamamos de progresso” 7C.

A concepção do progresso, subjacente tanto ao otimismo burguês como ao reformismo social-democrata, tem como substrato uma con­cepção otimista da História, para a qual a humanidade caminha em direção a um objetivo futuro. Mas a verdadeira salvação não está no futuro, e sim, de certa forma, no passado. O papel da revolução está em dar “um salto de tigre em direção ao passado15 70, a fim de liberar os diversos presentes cativos, e que aguardam de nós a sua redenção. Pois a nós, como a cada geração, foi concedida uma “frágil força mes­siânica3' que nos permitiria, em cumplicidade com os mortos — as gerações incontáveis dos oprimidos ao longo de todo o passado humano — corrigir os desastres da história e recompor os escombros acumulados por essa “tempestade a que chamamos progresso”. 

Essa concepção “barroca” da história, em que ela é vista alegoricamente, no sentido preciso que Benjamin dá ao termo — a história do mundo como um acúmulo de ruínas — tem, sob certos aspectos, algumas analogias com a concepção de Bloch. Convém lembrar que se Benjamin conhecia O espirito da utopia, publicado em 1919, Bloch certamente conhecia as teses sobre a filosofia da História, das quais extraímos os fragmentos acima, e que foram publicadas em 1942 por Horkheimer e Adorno. É o que explica a forte presença em Bloch de motivos benjaminianos. A frase de O principio esperança, já citada: “o futuro não-realizado se toma visível no passado, enquanto o passado, vingado e recolhido como uma herança, toma-se visível no futuro” 77, é praticamente uma paráfrase daquelas teses. A concepção do sonho prospectivo, de Bloch — o Träumen nach Vorwärts — já está prefigu­rada na tese de Benjamin de que “cada época sonha não somente a próxima, mas ao sonhá-la força-a a acordar” 7a

quinta-feira, 14 de maio de 2015

José Miguel Wisnik retoma a tradição do ensaio de interpretação nacional, tendo agora o futebol como metáfora

Raízes do século XXI


Em Veneno Remédio, José Miguel Wisnik retoma a tradição do ensaio de interpretação nacional, tendo agora o futebol como metáfora

por Pedro Meira Monteiro



or que não se escrevem mais ensaios de interpretação nacional?

Haverá quem acredite que esse tipo de ensaio não tem cabimento hoje em dia. Afinal, quando Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda escreveram Casa-Grande & Senzala e Raízes do Brasil, há quase oitenta anos, não havia a massa de conhecimento que hoje se tem, graças ao trabalho de décadas de cientistas sociais e historiadores. Mas se esse conhecimento todo permite falar de forma mais nuançada sobre o Brasil, ele também inibe, lembrando que qualquer tentativa de fixar traços nacionais será um exercício impressionista que não resiste a uma análise criteriosa da sociedade e da história.

O ensaio de interpretação nacional, contudo, não é e nunca foi o resultado do acúmulo de informações. O ensaio não fala do Brasil como ele é. Seu horizonte é radicalmente outro, diferente daquilo que pode propor um estudo de cunho científico ou histórico. O horizonte do ensaio é de natureza ética, quase transcendente. Ele sonda a vocação da coletividade: indaga não apenas como se veio parar aqui, mas aonde se vai e, mais ainda, aonde se deve ir. Seu campo de visão inclui o passado, o presente e o futuro num continuum, apostando numa história de larguíssimo alcance, como se navegássemos num fluxo cujo destino é ignorado. E o verdadeiro ensaísta é aquele que nomeia o destino, fazendo dele uma fábula na qual o leitor possa se reconhecer.

Então, depois de décadas de desenvolvimento das ciências sociais e dos estudos históricos, há ainda lugar para um ensaio que nomeie a vocação do Brasil?

A resposta veio há três anos, na forma de um livro que pode se tornar o Raízes do Brasil do século XXI: Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik. É lamentável que, sobretudo no meio acadêmico, ele não tenha ainda gerado grandes debates. Talvez haja alguma reticência por conta do tema, já que nem todos os intelectuais estão a fim de levar o futebol a sério. Mas talvez o problema esteja em que o livro ponha o dedo numa questão mal resolvida: a mestiçagem. Não a mestiçagem como mescla, apenas, de traços genéticos ou fenotípicos, mas sim como a quebra fundamental de padrões associados à ordem e à disciplina. A mestiçagem, em suma, enquanto mistura de matrizes e princípios civilizacionais. Que seria, por assim dizer, uma bagunça fertilizante.

Para Wisnik, o futebol não é uma válvula de escape para tensões sociais, um entretenimento banal, ou mesmo simples expressão de interesses econômicos e mercantis. O futebol é antes um sistema simbólico que aproxima amplos setores da sociedade da experiência real da perda e do ganho, que, como tais, serão sentidos e vividos como uma experiência coletiva. Ou perdem todos, ou ganham todos. Daí não se poder negligenciar o alcance político e identitário dessa aventura compartilhada.

A tentação de ver aí uma pulsão populista, de possível manipulação das massas, é grande, embora equívoca. É verdade que o fanatismo das torcidas é uma forma de apagamento de qualquer respeito pela diferença (o hooliganismo é um fato), mas antes do fanatismo há uma imensa gradação de possibilidades associativas, de identificação com o que se passa dentro de campo. Não escapará ao leitor a matriz psicanalítica de Wisnik: quando se fala do futebol, trata-se de analisar mecanismos de transferência complexos, isto é, o que se dá em campo tem uma implicação para o sujeito que assiste à partida, porque ali está cifrada a história e, porventura, o destino não apenas dele, mas de todos.

Uma diferença fundamental em relação às formações coletivas manipulatórias como o fascismo, dirá Wisnik, é que elas vivem no estado hipnótico que as leva para a frente, evitando tudo o que possa fazê-las cair na real (ou “no real”, em termos psicanalíticos), enquanto o jogo propicia uma batalha encantatória que está sempre à beira do real, e que inelutavelmente cairá nele. De fato, por mais que a partida encante, quando se joga para valer o risco da derrota é assumido e vivido, como se a perda fizesse parte do diálogo que o sujeito entretém com o destino.

Quando se joga, aprende-se a perder, enquanto a formação fascista se sustenta na negação de toda perda, evitando qualquer sombra de frustração, sempre buscando, com irritação e violência, varrer do mapa aqueles que pareçam colaborar para uma derrota inaceitável.



or que “veneno-remédio”, o termo com o qual Wisnik caracteriza o futebol brasileiro? A fórmula remete ao phármakon, que contém em si as sementes da cura e da destruição. A constatação do livro é mais ou menos simples, em parte intuitiva, mas sempre certeira: o Brasil viveria numa oscilação imaginária entre o sucesso e o descalabro. Somos os melhores, ou então não prestamos para nada.

O país, dirá Wisnik, “é ou receita de felicidade ou fracasso sem saída”. Não se admite nada entre os dois polos, e a mais perfeita sátira desse estado da alma coletiva é o “emplasto Brás Cubas”, que Machado de Assis pôs na imaginação de seu personagem, para que ele morresse pensando numa solução providencial que aliviasse de vez esta “melancólica humanidade”. Contra a tristeza profunda, a alegria eterna. Disso ainda morreremos, seria a lição de Machado.

Veneno Remédio é um livro no qual a erudição futebolística faz par com a análise cultural e filosófica. Se a síntese que ele propõe está próxima da indefinição radical de Sérgio Buarque de Holanda quanto ao futuro do Brasil, o aspecto elíptico e abundante da prosa de Wisnik o aproxima, nesse ponto ao menos, de Gilberto Freyre. Ou talvez, Veneno Remédio faça o meio de campo entre os dois ensaístas, já que é deles que Wisnik extrai as traves de seu pensamento.

Limito-me aqui a uma questão, fundamentalmesmo para aqueles que não ligam para o futebol. Trata-se de algo que, em Veneno Remédio, é nomeado como a “vocação não linear do futebol brasileiro”.

Por que a não linearidade, a elipse e os contornos sinuosos são chamados a dizer algo que vai além do campo de futebol? Como essa resistência ao retilíneo pode ajudar a compreender toda uma formação social, e coloca perguntas sobre o destino coletivo? A resposta parte de uma iluminação provocada pela literatura.

Além de amante do futebol e músico, Wisnik é um talentoso crítico literário. Daí que Veneno Remédio se inspire, logo de primeira, na distinção do cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini, que, no início dos anos 70, imaginou a oposição entre o futebol jogado em prosa, que ele associava às equipes europeias, e aquele jogado em poesia, identificado ao futebol sul-americano e, sobretudo, brasileiro.

A provocação tem consequências profundas para a compreensão do jogo visto por dentro. Mas, ao mesmo tempo, ela aponta para formas diversas de jogar com o pacto social, maneiras diferentes de explorar, enfim, os espaços dentro da sociedade. Num lado, europeu (capitalista, urbano, Primeiro Mundo etc.), a “vocação linear e finalista”, com “passes triangulados, ênfase defensiva, contra-ataque, cruzamento e finalização”; de outro, latino-americano (periférico, rural, Terceiro Mundo etc.), a “irrupção de eventos não lineares”, com a “criação de espaços vazios, corta-luzes, autonomia dos dribles, motivação atacante congênita”. Duas matrizes de jogo, e duas possíveis civilizações em confronto, ainda que se trate de princípios presentes em cada uma das sociedades em pauta.



esmo feita a ressalva dessa não exclusividade dos dois princípios, é chegado aqui um momento sensível, quando leitores mais zangados, desconfiados diante da matriz “freyriana” que elogia a civilização tropical em sua maleabilidade e ductilidade, atribuirão a Wisnik a apologia da malemolência nos trópicos, como se cada drible efetivo, em sua fulgurante beleza plástica, fosse a prova da superioridade de uma sociedade que, por assim dizer, contorna o conflito, incapaz que é de enfrentá-lo. Aí estaria, ademais, a leitura risonha do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, que os desavisados costumam identificar ao apagamento da violência, com o sucesso de uma “bondade natural” plenamente realizada na pátria bem-aventurada.

Conviria que o leitor em questão engolisse a zanga e, por um momento, recolhesse os lábios à posição original, antes de ensaiar seu sorriso irônico diante de – vejam só! – mais um a formar na fileira dos seguidores de Freyre. Discutir se Wisnik é mais ou menos freyriano é de uma ociosidade brutal. Evidentemente, há algo propriamente modernista, tendendo porventura mais a Mário e Oswald de Andrade que a Freyre, no estudo das consequências desses dribles, ou dessas “irrupções” que terminam por criar um curto-circuito na ordem linear dos objetivos claros, buscados segundo a lógica cristalina de meios e fins. Ou ainda, haverá aí algo tropicalista, com o sonho de uma civilização que se faz a expensas da ordem ameaçadora da técnica e da previsibilidade, apostando na soltura dionisíaca, vinda do prazer e da alegria do corpo.

O técnico, nesse sentido, é um castrador indesejado. Se necessário, exigirá do sujeito genial que deixe de lado seus rompantes criativos em nome da eficiência, porque os resultados são o que importa. Trata-se de um complexo de Dunga ou de Parreira, que não à toa acabaram por desempenhar a função paradigmática do técnico castrador, odiado exatamente porque poda aquilo que o Brasil teria de melhor.

Não é que castração e técnica sejam dispensáveis. Qualquer organização psíquica (inclusive coletiva) se desenvolve no intervalo entre a regra assumida e internalizada, de um lado, e o espaço que se costuma identificar como a “liberdade”, de outro. Esse espaço “livre” não existiria sem a ordem estabelecida. Não só a transgressão não existe sem a lei, como a própria liberdade depende, afinal de contas, do rompimento de uma regra fixada internamente, funcional no plano subjetivo. Para usar o velho jargão psicanalítico, não se joga bem quando o superego domina absoluto, mas tampouco há que deixar soltos os instintos, ou melhor, o id, o “isto” que, incontrolado, mergulharia a todos numa batalha sem tréguas e sem fim.



eixo para lá algumas das miragens internas do livro, como o encantamento de Wisnik pelo caráter único do futebol que, ao contrário do football jogado nos Estados Unidos, viveria à borda do imponderável, infenso à natureza cumulativa e progressiva dos esportes mais populares entre os norte-americanos. De fato, há algo muito interessante num esporte como o futebol (soccer), em que os mínimos e inesperados detalhes podem mudar o destino da partida, dando a sensação de que nem sempre o melhor é que vence, como se no fim houvesse uma possível justiça poética a aguardar ainda os mais fracos, para redimi-los. Enquanto isso, esportes como o basquete ou o futebol americano vivem do acúmulo linear de pontos, tornando praticamente inevitável que, ao final, vença o melhor, isto é, aquele que soube conjugar técnica, preparo e talento, abolindo, por assim dizer, o poder do azar.

É o poder do azar (sim, Mallarmé é também central em Veneno Remédio…) que está em jogo, quando entra em cena a “superioridade” do futebol brasileiro. Mas não se trata do azar como castigo cósmico, ou como determinação mítica do rumo da história. O “azar” em questão aponta para o poder fecundante da indeterminação, daquilo que se abre em uma miríade de possibilidades, exatamente porque não há nada capaz de cerrar ou controlar o quadro, quando se trata de uma jogada propriamente poética – e há muitas, belissimamente descritas no livro.

A poesia (e com ela o futebol, em seus momentos epifânicos) vive no limite da indeterminação, explorando as fronteiras do possível, alargando-as, nessa “faixa de gratuidade estrutural” que Wisnik atribui ao futebol. A técnica, no entanto, trabalha com as fronteiras do possível, atendo-se a elas e respeitando-as, numa espécie de reverência pelo que já está dado.

Imagina-se o alcance, portanto, da “não linearidade” que Veneno Remédio postula como característica nacional e que, em vez de constituir um caráter inelutável ou fixo, é simplesmente um elemento em jogo, com o qual os brasileiros devem se haver e que pode inclusive beneficiá-los. De uma perspectiva “racional” (desenvolvida, controladora, técnica etc.), a não linearidade é um defeito maior, mas é dessa droga que o Brasil extrairá seu remédio, ou seja, é a partir desse veneno que o país poderá dialogar com os donos do mundo, o que levaria a pensar no futebol como um “emplasto Brás Cubas que deu certo”. A ideia é tentadora, e fez com que Wisnik, a meio da partida, chamasse a campo um outro Buarque de Holanda, desta vez o filho do autor de Raízes do Brasil.

Observando uma pelada entre garotos europeus e filhos de imigrantes em Paris, em 1998, Chico Buarque notou que os ricos jogavam como “donos do campo”, privilegiando “o controle da bola em função da ocupação organizada do território”, enquanto os pobres eram apenas os “donos da bola”. A passagem vale a citação completa, pelo remate tocante: os filhos de imigrantes, diz Wisnik, secundando Chico Buarque, “se aproveitam, no futebol, da oportunidade de se adestrar o mais possível na intimidade com a bola (desenvolvendo no jogo aquela perícia que conhecemos, dolorosamente esplêndida e desperdiçada no espetáculo fugaz dos ‘malabaristas do sinal vermelho’). Unssãoequilibrados, outros sãoequilibristas”.

Entre o equilibrado e o equilibrista agita-se a questão do domínio dos códigos e, também, da confiança que se pode ter nas regras. Bem equilibrado, o rico joga como se o campo fosse seu plano natural, já que cada milímetro dele pode e deve ser ocupado racionalmente. A exceção, claro, é o ponto exato e itinerante em que está a bola, porque ali é que o “pobre” aparece para equilibrar-se, e o aspecto circense do estilo de Ronaldinho Gaúcho é provavelmente o que vem à mente do leitor. Afinal, ninguém disse ao pobre que o campo é também seu, portanto é melhor que ele não se fie na simples ocupação racional e horizontal do espaço, e é melhor que construa suas maravilhas para cima e para os lados, mas sempre em torno de si, sem perder a bola, em sua condição de ponto instável de equilíbrio.

Ainda na tabelinha entre pais e filhos, José Miguel avança com as observações de Guilherme Wisnik, lembrando que a ocupação do espaço é reveladora quando se trata da história norte-americana em sua marcha para o oeste. Aí estaria a “vocação imperialista para a conquista”, para a ocupação de ponta a ponta do território, que o faz pensar no campo de football, mas também numa grande linhagem poética que vai “de Walt Whitman a Herman Melville, incluindo John Ford, Frank Lloyd Wright e a land art”.

Já nós (um “nós” imaginário, como convém aos ensaios) nos equilibramos onde podemos, e como podemos. Porém, em Veneno Remédio a não linearidade não é chamada a dizer simplesmente a verdade de um “jeitinho”, ou de uma “bossa”: “coisas nossas”, no linguajar de Noel Rosa. De nada adiantaria, aliás, edulcorar tais “coisas” e pendurá-las na parede das nossas ilusões, como um troféu que dissesse a nós mesmos que somos os melhores, mesmo que o resto do mundo não saiba disso. Em suma, não se trata de autocondescendência ou autocelebração. Veneno Remédio é uma pergunta urgente sobre o que fazer com o que temos: como evoluir a partir desse estado de coisas?



m certo momento do livro, quando escritores diversos são convocados a dizer algo sobre o futebol, Wisnik lembra Mário de Andrade, que, discorrendo sobre uma derrota do Brasil para a Argentina em 1939, imaginou os brasileiros como “onze beija-flores” indefesos diante da azeitada máquina platina, como se uma “Minerva-Argentina” desse uma palmada de mestre “num Dionísio adolescente e já completamente embriagado” que, em sua teimosia divina, inventava todavia “umas rasteiras sutis, uns jeitos sambísticos de enganar” e “uns voleios rapidíssimos, uma coisa radiosa, pânica, cheia das mais sublimes promessas”.



í está o segredo de Veneno Remédio: a sublimidade de uma promessa irrealizada, de um espasmo de beleza e genialidade que se consome no próprio instante, que se esvai sem tornar-se produtivo, espetáculo fugaz e inútil, como o dos meninos malabaristas. Mas como converter essa produtividade improdutiva, esse momento glorioso e sem consequências, em um projeto, em uma cadeia de consequências claras e estáveis para a sociedade? Como, do prazer ininterrupto que move Macunaíma em sua saga de anti-herói, construir algo? Haveria que parar e mandar Macunaíma à escola, ensinar-lhe a técnica que ele por princípio despreza e ignora?

Garrincha é Macunaíma, Macunaíma é Garrincha. Para além das semelhanças “biográficas” desse saci-curupira de pés tortos – nascimento excepcional, crescimento anormal, precocidade e retardamento conjuntos –, Garrincha é o senhor do drible, que o leva a extremos inimagináveis de graça e curvatura. O drible macunaímico de Mané Garrincha é, para Wisnik, a conjunção benéfica de três termos: a elipse (a fuga da linearidade que produz um efeito poético, no plano retórico), o chiste (um instantâneo do inconsciente, nos termos de Freud) e a síncopa (acento contramétrico que se dá no encontro das rítmicas europeia e africana). Todos os três são dribles, à sua maneira: a elipse é uma maneira de contornar o próximo termo lógico, criando uma suspensão e um desvio inesperado no discurso; o chiste (Witz, no original; Freudianslip, em inglês; mot d’esprit, em francês) é o deslizamento que permite enganar a censura do consciente e soltar aquilo que estava guardado e reprimido no inconsciente; já a síncopa abre a possibilidade de que o corpo escorregue entre o tempo e o contratempo, desdobrando-se para caber num espaço que resiste à vocação marcial da marcha, expandindo-se naqueles requebros e meneios capoeirísticos que aos cronistas mais tradicionais da virada do século XIX para o XX pareceriam simples elemento regressivo, perigosamente africanizado, e que aos modernistas, justamente, vão parecer um tesouro, algo próximo à nossa mais pura essência, ou talvez, nos termos de Mário de Andrade, a nossas mais “sublimes promessas”.

Mas nem só de Garrinchas se faz uma nação, e convém perguntar até quando o amadorismo “renitente” e “pré-moderno” poderá existir, numa sociedade que avança e começa a ensaiar seu futuro a sério. Veneno Remédio aparece, não à toa, no momento em que o Brasil vai experimentando a sensação rara de que, talvez, haja um lugar para si à mesa do mundo desenvolvido. Evidentemente, a tensão entre a técnica e a soltura, a previsibilidade e a gratuidade, o virtual e o atual coloca-se como questão agônica para o país e explica, ao menos em parte, por que o “ensaio de interpretação nacional” renasceu justamente agora, em meio ao empuxe da última década, que nos levará sabe Deus aonde. Quando a pergunta transcendente – sobre o fim que aguarda a coletividade – começa a fazer sentido e a subir de volume, o ensaio se torna urgente, permitindo que a imaginação crítica solte as amarras da objetividade estrita, tão necessária quanto limitante.

Melhor nem entrar no caso de Pelé, deixando aos amantes do futebol a tarefa de buscar o diálogo que, em Veneno Remédio, Wisnik enceta com Tostão e Décio Pignatari, para compreender o jogador em tudo excepcional, que parece ter dado “atualidade ao virtual”. Fiquemos apenas com o balanço irresolvido e irresolvível entre a técnica e a soltura, o equilibrado e o equilibrista, que nos joga numa espécie de túnel na história das ideias, em cujo fim estão os luminosos debates do modernismo brasileiro, que por sua vez se atualizam na discussão que, em plena ditadura, o crítico Antonio Candido fez do balanço entre a “ordem” e a “desordem”. Um balanço irrequieto, provocativo, que Candido cunharia celebremente, não sem um fundo de ironia, como a “dialética da malandragem”.



uando publicou seu ensaio em 1970, Antonio Candido analisou Leonardo, personagem central de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Ali já estava cifrado todo o problema a que Wisnik procura responder em seu ensaio. No romance do século XIX, de acordo com Candido, “poderíamos dizer que há um hemisfério positivo da ordem e um hemisfério negativo da desordem, funcionando como dois ímãs que atraem Leonardo, depois de terem atraído seus pais. A dinâmica do livro pressupõe uma gangorra dos dois polos, enquanto Leonardo vai crescendo e participando ora de um, ora de outro, até ser finalmente absorvido pelo polo convencionalmente positivo”.

Ocorre que, numa leitura crítica de corte nitidamente modernista, Antonio Candido extraiu, segundo Wisnik, “uma interpretação de surpreendente acento positivo”, ao concluir que o romance produziria, em sua atmosfera de negaceios, “um encantador ‘mundo sem culpa’ de ânimo democrático e tolerante, avesso a estigmatizações e caças a bruxas”. Haveria, portanto, uma discreta preferência pelo valor paradoxalmente positivo da desordem, como se Garrincha ganhasse a batalha, embora talvez não a guerra.

Ao apontar para a maneira como a estrutura social se entranha na forma do romance, as teses de Antonio Candido seriam depois fundamentais para Roberto Schwarz, que aliás cobrou dele, num ensaio intitulado “Pressupostos, salvo engano, da dialética da malandragem”, o encantamento pelo polo da desordem, num momento em que, justamente, o Brasil necessitava de alguma ordem jurídica que fizesse frente ao arbítrio da ditadura. Mas antes que nos percamos nesse cipoal de questões tão interessantes, vale a pena notar que a “dialética da malandragem” se refere a um balanço, a uma “gangorra” entre polos diversos, sem apontar necessariamente para a vitória ou prevalência de um dos lados. Nem poesia nem prosa, nem epifania nem técnica, nem futebol nem football, trata-se antes de uma irresolução radical.



  leitura proveitosa de Veneno Remédio exige que se leve a sério a provocação do título, mas também que se preste atenção ao fato de que sua argumentação é cuidadosamente armada em oposições sucessivas, fecundas em sua irresolução e tensão: “prosa e poesia”, “capotão e capital”, “rito e jogo”, “a lama e a grama” etc. Basta notar como se constrói o ensaio, para entender que Wisnik fala de uma indivisível (não à toa, este é o título de seu recém-lançado CD) unidade de contrários, de um balanço perpétuo que grita como a verdade mais funda do Brasil. Não uma verdade essencial, parada no tempo e no espaço, mergulhada nas profundezas geológicas do “ser”, mas a verdade de uma tensão e de uma irresolução, sem que se apague jamais a sensação de que, podendo, os brasileiros cairão no polo da desordem, pois lá os choques se “abrandam” e o mundo se revela potencialmente “mais aberto”.

Aqui regressa o pomo da discórdia, porque essa face supostamente porosa e maleável aponta, justamente, para o encontro incruento, para a cordialidade em sua face mais generosa, abrindo as cortinas do passado para a questão espinhosa da herança da escravidão e de como ela se estabeleceu e desenvolveu no Brasil.

Não se pode dizer que Wisnik fuja ao problema. Ao contrário, ele tenta agarrar o touro à unha quando, recuperando o diálogo do crítico exilado Anatol Rosenfeld com Mário Filho sobre a presença do negro no futebol, sugere que se instaura uma espécie de “democracia racial em campo”. Estando ainda tão cerca o calor das primeiras discussões sobre política afirmativa no país, vale a pena reproduzir a ressalva na íntegra: “Podemos dizer que a democracia racial do futebol brasileiro prescreve (no sentido médico, de indicar um remédio), mas não descreve o Brasil. Ou, ainda, que ela descreve possibilidades realizadas e significativas que não se completam como sistema. Em outras palavras, o país não coincide consigo mesmo, e a democracia racial tem de ser complexamente pensada como algo que é e não é, contendo nesse paradoxo o xis da questão.”

A questão é como sair do campo de futebol, como realizar aquilo que não se realiza senão como momento ínfimo e espetacular, espraiando a promessa para convertê-la em realidade ou num “sistema” que permita à sociedade driblar a oposição dura entre as classes e as raças. O problema é tão mais gritante quanto classe e raça produzam overlaps, confundindo-se tanto e tão frequentemente no Brasil.

A miscigenação não é, portanto, a simples promessa da mistura. Nenhuma “raça cósmica” deve se formar no horizonte dessa civilização, nem há nenhuma intenção de negar o racismo no Brasil (“racismo à brasileira”, diria Roberto DaMatta), ou desqualificar a importância dos movimentos negros, por exemplo. O que há, em Veneno Remédio, é a aposta na pluralidade de uma fórmula compósita, como se uma matriz civilizacional mais “porosa” pudesse nascer daí, dessa desatenção às linhas retas que permitem esclarecer, sem margem a equívoco, quem está de um lado e quem está do outro.

O caminho é traiçoeiro e Wisnik conhece suas armadilhas. A principal delas é o “luso-tropicalismo” de Gilberto Freyre, que, em sua fase mais infeliz e reacionária, se entusiasmou com Portugal salazarista, advogando a excepcionalidade e a doçura do domínio lusitano nos trópicos (quando Portugal possuía ainda suas colônias na África, é bom lembrar). Pode-se argumentar, contudo, que as soluções políticas do Freyre luso-tropicalista não estavam ainda completamente reveladas em Casa-Grande & Senzala, de 1933. Mas deixemos de caminhar sobre brasas, para voltar ao horizonte de Veneno Remédio.

O princípio ingovernável – que Wisnik chamará, com divertida e irônica precisão, de “valor pi antropológico” – sugere haver algo indefinível sempre que nos aproximamos desse campo de experimentações que seria, para todos os efeitos, o futebol. Nele, algo como uma indecisão reinante faz lembrar o diagnóstico de Caetano Veloso, que, olhando para o espelho norte-americano, lembra que “aqui embaixo a indefinição é o regime”.

A onda tropicalista, a que se juntam outros além de Caetano e Wisnik (Hermano Vianna, por exemplo), vive da crença nesse espaço limite em que a ordem resvala e falha, permitindo a entrada em cena de um elemento inesperado, resistente à classificação. Podem-se tirar daí teoremas raciais, ou pós-raciais, que não poucos críticos identificarão a uma forma perversa de autonegação de um país que jamais saldou sua dívida histórica com os negros. Mas esta seria uma forma de colocá-los, a autores como Wisnik, Caetano ou Hermano (de resto tão diferentes), numa redoma em que eles se tornam os representantes indesejados de um redivivo e muitas vezes mal compreendido freyrianismo. Esse enquadramento violento e empobrecedor é, no entanto, uma maneira de não ouvir o que eles estão dizendo.

O trabalho e a reflexão sobre os limites da ordem são a forma viva de se pensar os limites da classificação, bem como os limites dos espaços sociais. O que não quer dizer, é claro, que a brincadeira promovida com a des/ordem em campo possa abolir as barreiras reais e cruéis que existem fora dele. Há aí um problema que, não sendo apenas um xis gritante no plano das ideias, nos atira diante de questões de ordem sociológica e histórica. Afinal, a “alquimia” do veneno-remédio – o futebol brasileiro – ainda não produziu a fórmula que traga a democracia para o plano do real, isto é, que promova aquela “queda no real” que Wisnik justamente propõe, e que é talvez a única maneira efetiva de romper o encanto de qualquer fórmula mágica. Mas aí, quebrado o feitiço, que será feito do Brasil?

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Entrevista com Marcos Neira sobre o papel da Educação Física nas escolas

Para o especialista da Universidade de São Paulo, a função da disciplina é investigar como os grupos sociais se expressam pelos movimentos

MARCOS GARCIA NEIRA, professor de Educação Física. Foto: Marina Piedade
MARCOS GARCIA NEIRA  "As aulas de esportes, jogos, lutas e danças não se esgotam na prática. É preciso refletir sobre essas manifestações para entendê-las de fato"
De todas as disciplinas do Ensino Fundamental, provavelmente a Educação Física foi a que sofreu transformações mais profundas nos últimos tempos. Mudanças pedagógicas e na legislação fizeram com que até mesmo sua missão fosse questionada. Se até a década de 1980 o compromisso da área incluía a revelação de craques e a melhoria da performance física e motora dos alunos (fazê-los correr mais rápido, realizar mais abdominais, desenvolver chutes e cortadas potentes), hoje a ênfase recai na reflexão sobre as produções humanas que envolvem o movimento. Se antes o currículo privilegiava os esportes, hoje o leque se abre para uma infinidade de manifestações, da dança à luta, das brincadeiras tradicionais aos esportes radicais. Ecos da perspectiva cultural, que domina pesquisas e ganha cada vez mais espaço nas escolas.
Considerado um dos principais investigadores dessa tendência, o professor Marcos Garcia Neira, da Universidade de São Paulo (USP), defende que a principal função da Educação Física escolar é analisar a diversidade das práticas corporais da sociedade - mesmo as consideradas mais polêmicas, como danças do tipo funk e axé. Amparado por 17 anos de docência na Educação Básica e pela participação na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio e das Orientações Curriculares do município de São Paulo, Neira discute essa questão provocadora e avalia os principais desafios da disciplina.
Por que a Educação Física mudou tanto nos últimos anos?
MARCOS GARCIA NEIRA Foi uma mudança que acompanhou uma série de outras transformações. Na sociedade, grupos que não tinham sua voz ouvida ganharam espaço, o que impactou o currículo. A escola, antes voltada apenas para o conhecimento acadêmico ou a inserção no mercado, passou a visar a participação do aluno em todos os setores da vida social, o que mexeu com os objetivos da área. E a própria legislação, que desde a década de 1970 apontava um compromisso com a melhoria da performance física e a descoberta de talentos esportivos, foi substituída em 1996 pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que propõe que a Educação Física seja parte integrante da proposta pedagógica da escola.
Na prática, quais foram as principais transformações?
NEIRA Eu acredito que a Educação Física passou a ser reconhecida como um componente importante para a formação dos alunos. Antes, eram comuns as aulas fora do período regular, as dispensas por motivos médicos ou a substituição por atividades pouco relacionadas com a área, como conselhos de classe, por exemplo. Tudo isso colaborou para construir, na cabeça de alunos e professores, a representação de uma disciplina alheia ao projeto escolar, que servia apenas como recreação ou passatempo e não tinha nenhum objetivo pedagógico. Hoje, essa concepção não é mais dominante.
Qual é o objetivo da Educação Física escolar hoje?
NEIRA É o mesmo objetivo da escola: colaborar na formação das pessoas para que elas possam ler criticamente a sociedade e participar dela atuando para melhorá-la. Dentro dessa missão, cada disciplina estuda e aprofunda uma pequena parcela da cultura. O que a Educação Física analisa é o chamado patrimônio corporal. Nosso papel é investigar como os grupos sociais se expressam pelos movimentos, criando esportes, jogos, lutas, ginásticas, brincadeiras e danças, entender as condições que inspiraram essas criações e experimentá-las, refletindo sobre quais alternativas e alterações são necessárias para vivenciá-las no espaço escolar.
Como deve ser uma aula ideal?
NEIRA Certamente não deve ser a do tipo "desce para a quadra, corre, corre, corre, sua, sua, sua e volta para a sala". A Educação Física proposta na escola não pode ser a mesma proposta em outros espaços. Se é apenas para o aluno se divertir, existem lugares para isso - ginásios públicos e centros comunitários, por exemplo. Se é somente para aprender modalidades esportivas, melhor procurar um clube ou uma academia. A escola não serve para formar atletas, mas para refletir e entender as manifestações culturais que envolvem o movimento.
Um exemplo concreto: como abordar o futebol nessa perspectiva?
NEIRA O trabalho pode começar com a turma experimentando jogar futebol, mas não pode parar por aí. A vivência de qualquer modalidade na escola exige reflexão e adaptação. Propondo uma pesquisa, é possível levar os alunos a conhecer outros tipos de futebol - de campo, de quadra, de areia, feminino -, conhecer quem pratica o esporte hoje, como se jogou no passado e como se pode jogar na escola. É importante que eles saibam, por exemplo, que o esporte já foi praticado sem juiz, que os atletas não tinham números na camisa e que o pênalti era cobrado de outra maneira. Com base nessas informações, voltam à prática já atentos a novas questões: é preciso arbitrar os jogos? Como fazer meninos e meninas participar simultaneamente? E as crianças com deficiência?
Apesar de a disciplina ter se tornado mais reflexiva, as atividades práticas continuam sendo importantes?
NEIRA É claro. A vivência segue sendo fundamental porque é somente por meio dela que a turma sente a necessidade de fazer adaptações, algo presente em todas as modalidades. Afinal, elas se transformam conforme "conversam" com a sociedade. O voleibol, por exemplo, mudou seu sistema de pontuação principalmente para se adaptar às transmissões de TV. Essa lógica vale para todas as manifestações corporais, mesmo as mais lúdicas. Quando alguém brinca de pega-pega na rua, brinca de certo jeito. Quando vai brincar com 35 crianças na escola, precisa adaptar a atividade para que ela funcione.
Campeonatos e festivais esportivos continuam tendo espaço?
NEIRA Particularmente, acho que montar uma seleção com seis a 12 alunos e deixar 300 sem aula para disputar uma competição é fabricar adversários. Não podemos partir do pressuposto de que um pequeno grupo vai ser privilegiado e participar da atividade enquanto a maioria vai apenas torcer, ou nem isso. Agora, se os educadores consideram a competição algo importante, é possível, sim, organizar eventos, mas de uma perspectiva diferente. Sugiro, por exemplo, combinar de levar uma turma de 5ª série para jogar com a de uma escola próxima, negociar regras, fazer todo mundo participar da experiência e realizar uma avaliação conjunta depois, discutindo o que os jovens acharam da atividade e como melhorá-la numa próxima vez.
Como lidar com crianças que demonstram especial habilidade em alguma modalidade esportiva?
NEIRA Devemos estimulá-las a prosseguir. Entretanto, o lugar para continuar com o trabalho não pode ser a escola, mas instituições especializadas para a prática esportiva. A escola tem como função ajudar a compreender o mundo e sua cultura. Não há como desenvolver um projeto esportivo se o que se pretende é contemplar todos os alunos.
Alguns países, como Estados Unidos e Inglaterra, usam as escolas como base para revelar atletas. Isso pode ser uma alternativa para o Brasil?
NEIRA O incentivo ao esporte visando a participação em eventos internacionais já foi a política oficial da Educacão Física em nosso país na década de 1970. Não deu certo. Ainda que algumas nações vejam na disciplina uma forma de aprimorar o desenvolvimento motor e físico, esse enfoque competitivo e as atividades de treinamento costumam ocorrer em momentos extra-aula.
Como saber quais esportes, jogos, lutas, danças e brincadeiras devem fazer parte do currículo?
NEIRA O ponto de partida é sempre o diagnóstico inicial. O interessante é que esse mapeamento do patrimônio cultural corporal da turma - as práticas ligadas ao movimento que os alunos conhecem ou realizam - revela uma realidade mais diversificada do que imaginamos. A garotada brinca de esconde-esconde, conhece skate pela TV, tem algum parente que pratica ioga e conhece malha ou bocha porque os idosos jogam na praça. É possível ainda fazer outros mapeamentos. O professor pode passear pelo bairro observando manifestações corporais e equipamentos esportivos. Há academias ou ruas de caminhada, por exemplo?
Mas é preciso escolher algumas práticas no meio de tanta diversidade. Como fazer isso?
NEIRA Antes de mais nada, é fundamental ter em mente as finalidades do projeto pedagógico da escola - devemos lembrar que a Educação Física não pode ser uma prática alienada. Além disso, a perspectiva cultural da disciplina considera quatro princípios importantes na definição do currículo. O primeiro é que a matriz de conteúdos deve dialogar com todos os grupos que compõem a sociedade - e trabalhar só com esportes modernos contradiz esse princípio. O segundo é a noção de que o aluno precisa enxergar na sociedade as manifestações que está estudando. O terceiro é entender e respeitar as possibilidades de cada estudante, evitando, por exemplo, as avaliações por performance. E o quarto é o professor repensar constantemente a própria identidade cultural para aperfeiçoar o currículo.
Qual deve ser a postura da escola quando a cultura corporal dos alunos inclui danças como o funk e o axé?
NEIRA Não devemos fechar os olhos para essas manifestações, pois podem ser danças que os estudantes cultuam fora da escola. Isso não significa que devemos ficar apenas com aquilo que eles conhecem. Se o professor focar só os aspectos superficiais do funk e do axé, ensaiando coreografias, por exemplo, não estará cumprindo seu papel. Por outro lado, um trabalho crítico ajuda as crianças a analisar e interpretar o que são essas danças, contribuindo para que elas conheçam a própria identidade cultural e entendam quem são. A chamada cultura de chegada dos estudantes é um bom ponto de partida para um trabalho em direção a uma cultura mais ampla. A escola deve sempre fazer essa ponte entre o repertório conhecido e o desconhecido.
Como isso funciona na prática?
NEIRA É preciso transformar o conhecimento dos alunos em objeto de análise e investigação pedagógica. Considero válido, por exemplo, um projeto que aborde o funk e o axé no contexto de outras danças contemporâneas, estudando as letras, entendendo o que está embutido nelas, as práticas interessantes ou desinteressantes que acompanham essas manifestações. Em seguida, é possível convidar dançarinos ou trazer vídeos para apresentar outras danças, ampliando o repertório da turma. É um trabalho multicultural porque considera diversos tipos de prática corporal, mas é um multiculturalismo crítico porque questiona e analisa cada uma delas.
Como desenvolver o senso crítico?
NEIRA Comparando, indagando e aprofundando conteúdos para que a turma reflita. Depois de pular amarelinha, pense por que existem as "casas" do céu e do inferno. Durante o estudo dos exercícios físicos, reflita por que a academia se transformou numa espécie de espaço sagrado da saúde se as qualidades físicas alcançadas por lá também são obtidas, de graça, no parque. Uma Educação Física que trabalha apenas com o movimento não constrói esse senso crítico.
Quer saber mais?
CONTATO
Marcos Garcia Neira


BIBLIOGRAFIA 
Cultura Corporal: Diálogos entre Educação Física e Lazer, Marcos Garcia Neira e Ricardo Ricci Uvinha, 88 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2233-9000, 14,80 reais
Ensino de Educação Física, Marcos Garcia Neira, 232 págs., Ed. Thomson Learning, tel. (11) 3665-9900, 39,90 reais
Pedagogia da Cultura Corporal: Crítica e Alternativa, Marcos Garcia Neira e Mario Luiz Ferrari Nunes, 296 págs., Ed. Phorte, tel. (11) 3141-1033, 29 reais

INTERNET Artigos e relatos de experiência sobre Educação Física escolar